sexta-feira, 4 de junho de 2010
Valsa com Bashir - texto da Profa. Ana Mauad
A professora Ana Mauad, do Departamento de História da UFF, gentilmente nos cedeu um breve texto produzido por ela sobre o filme "Valsa com Bashir" para um debate realizado no ano passado pelo Cahis. Reproduzo abaixo o texto e apenas chamo a atenção que o exercício para a próxima aula é o mesmo sobre o ataque de Israel à frota de ajuda humanitária à Gaza. Acompanhem na postagem anterior. A seguir o texto da profa. Ana Mauad.
VALSA COM BASHIR
Ari Folman, 2008, cerca de 90 minutos.
Documentário animado
No Líbano, 1982, um jovem judeu de 19 anos cumprindo o serviço militar, participa do massacre de Sabra e Shatila, lançando os mísseis de iluminação que guiariam os falangistas cristãos na vingança contra o assassinato do seu líder – o presidente eleito Bashir Gemayel.
O jovem é o próprio cineasta que em busca da sua memória realiza um mergulho nas lembranças da sua geração, misturando fatos narrados, sonhos e alegorias psicanalítcas, numa narrativa documental intertextual.
A opção pelo desenho animado propicia a diferentes formas de representação das lembranças e o processo de rememoração, mediado pelos traços da animação ganha força de imaginação. Define-se assim que lembrar e rememorar são ações que se fazem num presente, compondo o passado por um conjunto de impressões, de desejos interditos, de expectativas frustradas. Não é porque ela não representa factualmente o que aconteceu que deixa de ser uma narrativa verdadeira, pois a verdade no processo de rememoração é definida pela capacidade das lembranças evocarem outras lembranças numa trama continuada que refaz os percursos de histórias íntimas. Essas não estão absolutamente em contradição com a história pública, ao contrário, a enfrenta e no confronto ganha a verdade histórica – nunca absoluta, mas sempre necessária e carente de múltiplas visões.
O recurso a animação é uma forma de filmar a memória sem falseá-la pela representação realista da película e da encenação. Em valsa de Bashir a animação é a forma expressiva ideal para a atualização de memórias tão interditadas e afogadas num mar de culpas passadas. Para no final o real emergir no impacto das cenas filmadas – como se acordasse de um sonho e finalmente se conseguisse transformar memória em história. Aqui a memória mostra o quanto é impossível ser resgatada ou restaurada, pois ela é sempre um passado-composto no presente, uma busca do sujeito em ter um futuro.
Eu tinha 22 anos em 1982 e estava me formando em história na UFF. Do massacre me lembro muito pouco, mas misturado a guerra do Líbano, da qual tinha interesse pela minha descendência – sou neta de libaneses. Hoje sou casada com um chileno descendente de palestinos e meus filhos se descobriram recentemente árabes. Hoje acompanhando esse mergulho na memória que o filme provoca – confesso que na noite seguinte tive muitos pesadelos com as imagens – algumas questões me surgiram.
A primeira delas é sobre as transformações no estatuto do filme documentário ao longo do século XX e as mudanças no regime de verdade na produção do que é documental. Isso se estende à história também...
A segunda diz respeito ao relato biográfico e a capacidade do olhar micro fazer tanto sentido para a macro-história;
A terceira tem a ver com a questão do sujeito e a crise do gênero masculino. Essa eu lanço para a audiência para a gente pensar junto.
Obrigada, Ana Maria Mauad
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2 comentários:
Achei interessante o formato do filme,pois nos faz pensar mais profundamente sobre o que é ou não 'verdade', além de nos fazer refletir sobre a importância da memória para a história.Além disso, o filme apresenta o relato como parte dessa história, valorizando,a meu ver,a história produzida oralmente como fonte para análise de momentos importantes como a Guerra do Líbano.
O formato do filme é bem diferente do convencional, prende a atençao de quem está vendo. Além disso, o filme mostra a confusão que acontece na cabeça das pessoas que participam ativamente de uma guerra, quando elas já não sabem mais o que é real e o que não é, através disso podemos perceber como funciona a memória e como ela se distrorce.
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